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12 janeiro 2013

À você

Nunca me dirigi à quem lê. Deve ser pelo fato de que eu tenho (ou tinha) certeza absoluta que ninguém me lia ou que me leria. Pois bem hoje estou confiante de mim e vou escreve pra você que lê. Vamos começar por onde? Que tal o blá blá blá de sempre que começa assim: Este blog é o lugar onde... ou Aqui venho me comunicar com todos os que... É acho que não é por aí! O cursor ta piscando aqui a esperada do meu discurso, mas odeio discursos. Odeio falar em público. Bom, mas vamos tentar. Eu comecei com isso (o Só por hj) pra guardar as coisas que passam voando na minha cabeça. É isso, aqui é uma coletânea de palavras voadoras. Se são boas coleções de palavras? Se elas combinam? Isso leitor, você quem vai me contar (ou não). Escrevo pra ser feliz e ponto. Sinto muito, mas não escrevo pra você até porque ser lida em qualquer contexto implica em ser exposta e aqui eu realmente me desnudo. Não! Não estou lhe expulsando! Vamos entre fique à vontade leia comente boa sessão de estreep pra você. Perceba, quando lhe chamo de leitor você faz parte do Só por hoje no momento em que lê. Eu estou lhe incluindo é por isso que estou escrevendo este texto pra você. Espero compartilhar muitas palavras voadoras. Agente se vê ou se escreve!
Té mais pessoa! Pessoa?? Tem alguém aí? Oi? É, possivelmente Leitor é só mais um personagem fruto da minha doce e inquieta imaginação.  

11 janeiro 2013

O espelho da viúva

Marina chorava e olhava aquele caixão tentando não gravar aquilo na memória. Armando era um bom marido, bom pai e seus olhos encheram de lágrimas ao lembrar. Todos que eles conheciam estavam ali, alguns poderiam não estar. Enquanto secava a nova leva de lágrimas Marina ouvia tudo ao redor. O padre em seu sermão, os suspiros, os cochichos. Ao esquadrinhar ao redor do futuro túmulo ela começou a reparar nos rostos. Os colegas de trabalho estavam todos, alguns sérios concentrados numa verdadeira despedida outros pareciam estar com a cabeça em outro lugar olhando ao redor como que tentando sair dali sem mover os pés. As crianças paravam de implicar umas com as outras assim que eram repreendidas pelos adultos e baixavam a cabeça como que pra compor uma cena. O lado de Armando da família também compareceu em peso a mãe dele chorava em alto e bom som e olhava para Marina como que perguntando: - O que você fez ao meu filhinho?
As irmãs de Armando estavam com as caras de sempre azedas, mal amadas.
Carlinhos o filho do falecido e de Marina estava quieto como nunca havia estado. Aquele terno azul lhe parecia que estava pesado a ponto de enverga-lhe as costas. Marina sentiu uma lágrima nesse momento.
Olhou para o seu lado da família agora sua mãe lhe apertava a mão como que para lhe dar forças afinal sabia o que se passava havia perdido o marido também.  Ela era o único membro do lado de Marina da família. Ao observar para o lado onde estavam os vizinhos e os amigos de trabalho Marina à viu. Parecia que ela era uma viúva também. As lágrimas lhe escorriam silenciosas como Marina já estava acostumada a sentir escorrendo em seu próprio rosto desde que seu marido morrera. A mulher estava parada atrás de dois colegas de trabalho de Armando. Marina não lembrava de tela visto antes mas sabia de quem se tratava. Lembrou de anos antes quando encontrou um bilhete estranho no bolso do marido. O bilhete dizia apenas às duas! Marina não precisava de mais palavras escritas ali para saber do que se tratava sentiu um perfume doce feminino, a letra era feminina e o coração desenhado no ponto de exclamação final eram bastantes. Marina nunca perguntou á Armando que bilhete era aquele mas sentia a sombra da mulher e à via em sua imaginação. A mulher estava em todos os cômodos e Marina ansiava topar com ela na rua e vê-los cara a cara mesmo sabendo que era impossível reconhecê-la. No fundo Marina sabia que a veria, mas sabia também que esse dia seria o dia do enterro do marido. Era o único lugar onde ela tinha certeza que encontraria a mulher do bilhete e a reconheceria não pelo perfume que era o único vestígio que tivera cesso mas reconheceria porque ela seria a única viúva a chorar a morte de Armando além da própria Marina. E de fato a mulher jovem aparentando ter seus vinte e cinco anos, não muito distante de Marina que tinha vinte e nove, estava de vestido preto impecável e saltos chorando Armando com a mesma dor no olhar que Marian vira no espelho pouco antes. Um véu lhe cobria metade do rosto e estava preso à um chapéu de abas longas. Os cachos loiros pendiam do seus ombros. Marina fitou-a durante todo o enterro e o fato de a mulher não tirar os olhos do caixão fez com não notasse que havia sido descoberta. Ao fim do sermão Marina foi arrancada de seus devaneios pelo som de seu nome pronunciado pelo padre que lhe desejava força e paz. Os presentes deram as mãos e rezaram e se foram apara deixar Marina dar o último adeus à Armando a mãe acompanhou Carlinhos Marina achou que ao levantar a vista veria a mulhar de costas caminhando para longe mas para sua surpresa a mulher jazia no mesmo lugar imóvel. Agora Marina sentia o ímpeto de tomar-lhe, de perguntar o que estava fazendo ali. Ela se perguntava se a mulher não achava suficiente se infiltrar nos dias dela com Armando. Marina não conseguiu mexer-se, mas mulher a percebendo que só restara as duas vinha caminhando em sua direção. Marina sentiu o sangue gelar ao mesmo tempo que o coração parecia que iria saltar do peito e cheiro doce do bilhete lhe invadiu a narina. Era ela! Era a mulher do bilhete que há anos Marina estava esperando. Nesses segundos que parecem uma eternidade Marina foi lembrando de cada cena em que a mulher estava presente pela sua imaginação. Ao chegar ao seu lado  mulher continuava encarando Armando e disse: - Ele se foi sem ter sido inteiro ao menos por um dia. Marina ouviu cada palavra queria ouvir aquela voz. A mulher continuou:-Esperei todos os dias dos últimos anos por esse dia. O dia em lhe encontraria. Marina tirou os olhos do caixão e voltou a olhar para a mulher e ela também a fitava. Marina disse: Por quê? A mulher apressou-se em dizer que amava Armando, que sentia muito, que desejou que fosse diferente. Marina interrompeu-a: Não foi isso que perguntei. Essa resposta eu já sabia é a única que você teria. O que eu quero saber é porque eu esperei tanto pra ver você, ensaiei tanto o que diria a você o quanto lhe humilharia, mas hoje você está aqui e eu não consegui nem ao menos me dirigir à você. A mulher olhou para Marina e disse: -Eu também tenho perguntas não respondidas queria vir aqui hoje não por amor à Armando mas ver você queria mostra pra você que eu existo e que ele também me amou e ir embora antes que você pudesse falar qualquer coisa que me colocasse no meu lugar. Sairia vitoriosa antes da batalha começar e com meu traje mais bonito desfilaria na sua frente. Hoje era o meu dia de ser primeira e única, mas não consegui me mover fiquei parada vulnerável vim me dirigir a você. Marina olhou a mulher e se viu naquelas lágrimas, nos olhos tristes, na vida roubada e disse: -Ele roubou nós duas temos a mesma dor de amá-lo e compartilhamos uma vida sem nos conhecermos. A resposta que precisamos eu já vejo. Eu vejo meu sofrimento em você me vejo em você e você em mim. Você assim como eu não pode lutar com você mesma, não pode maltratar você mesma. Marina abraçou a mulher que retribuiu o abraço e foram embora em caminhos opostos sem olhar para trás.  Marina se foi com seu vestido preto mais bonito, seu sapato de salto e seu chapéu de abas longas coberto por um véu que escondia parte de seu rosto e de seu cabelo dourado. 

Viagem

Era salgado o sabor da água que inundava meus olhos.
Era doce a boca que pedia para ficar.
Era aterrorizante a incerteza do próximo porto.
Era bela a coragem pra partir.
Era forte aquela que educou para o mundo.
Era difícil deixar os rios em busca dos campos.
Eu fui.
Fui crescer.
Fui viver.
Com único propósito
Voltar maior. 

Deixe eu te contar um café?

O cursor piscava na página em branco e as falanges ansiavam por tocar os quadrados pretos do teclado. Ele não conseguia pensar em nada ou não conseguia parar de pensar em tudo e escrever sobre uma coisa. Os pés começaram a dançar em baixo da escrivaninha e a noite foi chegando. O cursor lhe afligia como um relógio insistindo em lembrar que o tempo estava passando. Era como se o piscar ritmado exercesse uma pressão silenciosa sobre sua cabeça. Ele se arriscou a dar algo para o cursor irritante. Não foi suficiente, as letrar perdidas no papel ainda não faziam sentido algum e o tempo continuava correndo. A seu redor ele podia ouvir cada som esperando que algum deles lhe desse algo o que escrever. Esperava que  o latido do cão da vizinha, o barulho dos carros passando a conversa que rolava solta na calçada lhe dessem algo. Uma estória da qual ele seria o narrador, mas os sons eram apenas obstáculos enfeitados que lhe fazia perder mais tempo. À essa altura a garganta estava seca. Levantou-se, bebeu água e decidiu que precisava de algo mais forte que lhe abrisse a mente. Foi à despensa e pegou o pó de café. O café era uma bebida que tinha seu valor, foi alicerce de impérios, circulou entre os mais sábios, entre os artistas de forma corriqueira chegou a fazer parte de grandes obras. Pensadores de muitas gerações já meditaram sobre a fumaça enebriante do café. A quem faça dele oráculo, a leitura da borra de café é uma cultura milenar criada pelos árabes. Uma bebida assim só poderia inspirá-lo. Colocou a água para ferver. Esperou as bolhas de ar formarem-se no fundo da leiteira e como numa dança desprenderem-se do fundo e chegarem à superfície. Fez  o café tomou um gole e sentou-se. O cursor ainda piscava impaciente ele agora sentia um calor que vinha da sua bebida inspiradora e o cheiro da infusão tomou o ambiente. Deu mais um gole agora a noite estava silenciosa. Nada vinha de fora para forçar-lhe a escrever. De repente  o telefone toca, do outro lado da linha uma voz feminina pergunta: - Quem está falando?
Ele irritado olha para o relógio que marcava meia noite e retruca: - Eu que pergunto quem me liga à essa hora da noite?
A voz feminina meio desapontada responde: É, deve ser engano você não é o que procuro.
Ele agora com um toque de curiosidade pergunta: - Você gostaria de falar com quem?
A voz feminina com um ar sorridente responde: - Talvez você possa me ajudar. Tenho um problema e preciso falar com alguém, mas essa pessoa precisa saber que uma vez que tiver ouvido a história fará parte dela. Não haverá como escapar e não sou eu quem vai lhe prender na minha trama, você quem vai querer cruzar a linha e espiar o resto, a partir daí o desfecho dependerá de você também.
Ele do outro lado da linha suspirou e apesar de ter certeza que aquilo era uma espécie de trote não desligou. Afinal ele quase suplicou a noite inteira por uma trama, uma história que se permitisse ser contada. Talvez a história da voz ao telefone fosse apenas uma piada sem graça, mas agora era tarde a trama se desenhava em sua mente já independente da voz narradora do outro lado. Ele precisava dar corda aquele momento seu coração começo a acelerar sua cabeça fervilhava. Depois de segundos de silêncio ele respondeu: Então de-me sua história, mas devo adverti-la que uma vez fora da sua boca ela será minha também e dela farei o que desejar. Pronta?
A voz do outro lado disse: Sim!
Ela falou por o que pareceu ser horas. Ele não relaxou em nenhum momento da história. Estava surpreso, perplexo e sem esperar disse: Preciso vê-la.
Ela parou de falar e em seguida prosseguiu dizendo: Posso lhe oferecer um café?
Ele lembrou da bebida na escrivaninha e disse: Claro. Nada envolve melhor uma história que um café. Ele saiu apressado e foi encontrar com ela numa cafeteria próxima que servia de ponto de encontro para escritores e  artistas onde faziam-se saraus noite à fora. Ele entrou e procurou pela descrição que ela havia lhe dado. Percorreu devagar o local com os olhos sem deixar escapar nada até avistar. Ela estava sentada numa mesa de canto para dois. Tinha cabelos ruivos e vestia um vestido preto que contrastava com a pele clara. Ele não acreditou no que viu foi em sua direção sentou-se e o garçom veio pegar o pedido. No tablado um poeta recitava seus versos. Ela pediu um café preto sem açúcar e bem forte. Ele à acompanhou. Ela recomeçou de onde havia parado. Ele já havia experimentado inúmeros sentimentos no decorrer da história desde raiva a risos, mas agora as palavras que saiam dos lábios dela tinham cor forma as vezes um sorriso se desenhava em seus lábios noutras vezes uma lágrima queria saltar dos seus olhos castanhos claros. Ele se deleitou nas suas palavras estava feliz em apenas ouvir ao invés de contar histórias poderia ficar ali pra sempre sem pressões, sem cobranças. No meio de tudo aquilo um ruído lhe alcançou. Ele tentou desvencilhar daquele ruído que não combinava com a imagem que ele via e mascarava voz da mulher. Ele procurou e o barulho era insistente, foi aumentando. De repente o barulho ficou completamente audível. Como ninguém ouvia? Como ela continua a contar a história indiferente a este barulho se eu mal podia ouvi-la? O lugar foi ficando claro tudo foi desaparecendo na luz inclusive a mulher. A luz machucava os olhos e ele cerrou-os com força. Ao abri-los viu-se em sua escrivaninha o sol invadia a janela aberta. A fumaça do café se foi e com ela o cheiro inebriante e a voz da ruiva. O cursor piscava na tela, mas agora fazia companhia à um ponto final e à sua esquerda havia muitos outros caracteres. A página branca estava rajada de preto de ponta à ponta.  Ele enfim identificou o barulho, era o telefone que  tocava desesperadamente. Ele ainda zonzo atendeu e uma voz familiar e feminina do outro lado da linha falou: -Bom dia. Quem está falando?