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11 janeiro 2013

O espelho da viúva

Marina chorava e olhava aquele caixão tentando não gravar aquilo na memória. Armando era um bom marido, bom pai e seus olhos encheram de lágrimas ao lembrar. Todos que eles conheciam estavam ali, alguns poderiam não estar. Enquanto secava a nova leva de lágrimas Marina ouvia tudo ao redor. O padre em seu sermão, os suspiros, os cochichos. Ao esquadrinhar ao redor do futuro túmulo ela começou a reparar nos rostos. Os colegas de trabalho estavam todos, alguns sérios concentrados numa verdadeira despedida outros pareciam estar com a cabeça em outro lugar olhando ao redor como que tentando sair dali sem mover os pés. As crianças paravam de implicar umas com as outras assim que eram repreendidas pelos adultos e baixavam a cabeça como que pra compor uma cena. O lado de Armando da família também compareceu em peso a mãe dele chorava em alto e bom som e olhava para Marina como que perguntando: - O que você fez ao meu filhinho?
As irmãs de Armando estavam com as caras de sempre azedas, mal amadas.
Carlinhos o filho do falecido e de Marina estava quieto como nunca havia estado. Aquele terno azul lhe parecia que estava pesado a ponto de enverga-lhe as costas. Marina sentiu uma lágrima nesse momento.
Olhou para o seu lado da família agora sua mãe lhe apertava a mão como que para lhe dar forças afinal sabia o que se passava havia perdido o marido também.  Ela era o único membro do lado de Marina da família. Ao observar para o lado onde estavam os vizinhos e os amigos de trabalho Marina à viu. Parecia que ela era uma viúva também. As lágrimas lhe escorriam silenciosas como Marina já estava acostumada a sentir escorrendo em seu próprio rosto desde que seu marido morrera. A mulher estava parada atrás de dois colegas de trabalho de Armando. Marina não lembrava de tela visto antes mas sabia de quem se tratava. Lembrou de anos antes quando encontrou um bilhete estranho no bolso do marido. O bilhete dizia apenas às duas! Marina não precisava de mais palavras escritas ali para saber do que se tratava sentiu um perfume doce feminino, a letra era feminina e o coração desenhado no ponto de exclamação final eram bastantes. Marina nunca perguntou á Armando que bilhete era aquele mas sentia a sombra da mulher e à via em sua imaginação. A mulher estava em todos os cômodos e Marina ansiava topar com ela na rua e vê-los cara a cara mesmo sabendo que era impossível reconhecê-la. No fundo Marina sabia que a veria, mas sabia também que esse dia seria o dia do enterro do marido. Era o único lugar onde ela tinha certeza que encontraria a mulher do bilhete e a reconheceria não pelo perfume que era o único vestígio que tivera cesso mas reconheceria porque ela seria a única viúva a chorar a morte de Armando além da própria Marina. E de fato a mulher jovem aparentando ter seus vinte e cinco anos, não muito distante de Marina que tinha vinte e nove, estava de vestido preto impecável e saltos chorando Armando com a mesma dor no olhar que Marian vira no espelho pouco antes. Um véu lhe cobria metade do rosto e estava preso à um chapéu de abas longas. Os cachos loiros pendiam do seus ombros. Marina fitou-a durante todo o enterro e o fato de a mulher não tirar os olhos do caixão fez com não notasse que havia sido descoberta. Ao fim do sermão Marina foi arrancada de seus devaneios pelo som de seu nome pronunciado pelo padre que lhe desejava força e paz. Os presentes deram as mãos e rezaram e se foram apara deixar Marina dar o último adeus à Armando a mãe acompanhou Carlinhos Marina achou que ao levantar a vista veria a mulhar de costas caminhando para longe mas para sua surpresa a mulher jazia no mesmo lugar imóvel. Agora Marina sentia o ímpeto de tomar-lhe, de perguntar o que estava fazendo ali. Ela se perguntava se a mulher não achava suficiente se infiltrar nos dias dela com Armando. Marina não conseguiu mexer-se, mas mulher a percebendo que só restara as duas vinha caminhando em sua direção. Marina sentiu o sangue gelar ao mesmo tempo que o coração parecia que iria saltar do peito e cheiro doce do bilhete lhe invadiu a narina. Era ela! Era a mulher do bilhete que há anos Marina estava esperando. Nesses segundos que parecem uma eternidade Marina foi lembrando de cada cena em que a mulher estava presente pela sua imaginação. Ao chegar ao seu lado  mulher continuava encarando Armando e disse: - Ele se foi sem ter sido inteiro ao menos por um dia. Marina ouviu cada palavra queria ouvir aquela voz. A mulher continuou:-Esperei todos os dias dos últimos anos por esse dia. O dia em lhe encontraria. Marina tirou os olhos do caixão e voltou a olhar para a mulher e ela também a fitava. Marina disse: Por quê? A mulher apressou-se em dizer que amava Armando, que sentia muito, que desejou que fosse diferente. Marina interrompeu-a: Não foi isso que perguntei. Essa resposta eu já sabia é a única que você teria. O que eu quero saber é porque eu esperei tanto pra ver você, ensaiei tanto o que diria a você o quanto lhe humilharia, mas hoje você está aqui e eu não consegui nem ao menos me dirigir à você. A mulher olhou para Marina e disse: -Eu também tenho perguntas não respondidas queria vir aqui hoje não por amor à Armando mas ver você queria mostra pra você que eu existo e que ele também me amou e ir embora antes que você pudesse falar qualquer coisa que me colocasse no meu lugar. Sairia vitoriosa antes da batalha começar e com meu traje mais bonito desfilaria na sua frente. Hoje era o meu dia de ser primeira e única, mas não consegui me mover fiquei parada vulnerável vim me dirigir a você. Marina olhou a mulher e se viu naquelas lágrimas, nos olhos tristes, na vida roubada e disse: -Ele roubou nós duas temos a mesma dor de amá-lo e compartilhamos uma vida sem nos conhecermos. A resposta que precisamos eu já vejo. Eu vejo meu sofrimento em você me vejo em você e você em mim. Você assim como eu não pode lutar com você mesma, não pode maltratar você mesma. Marina abraçou a mulher que retribuiu o abraço e foram embora em caminhos opostos sem olhar para trás.  Marina se foi com seu vestido preto mais bonito, seu sapato de salto e seu chapéu de abas longas coberto por um véu que escondia parte de seu rosto e de seu cabelo dourado. 

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