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11 janeiro 2013

Deixe eu te contar um café?

O cursor piscava na página em branco e as falanges ansiavam por tocar os quadrados pretos do teclado. Ele não conseguia pensar em nada ou não conseguia parar de pensar em tudo e escrever sobre uma coisa. Os pés começaram a dançar em baixo da escrivaninha e a noite foi chegando. O cursor lhe afligia como um relógio insistindo em lembrar que o tempo estava passando. Era como se o piscar ritmado exercesse uma pressão silenciosa sobre sua cabeça. Ele se arriscou a dar algo para o cursor irritante. Não foi suficiente, as letrar perdidas no papel ainda não faziam sentido algum e o tempo continuava correndo. A seu redor ele podia ouvir cada som esperando que algum deles lhe desse algo o que escrever. Esperava que  o latido do cão da vizinha, o barulho dos carros passando a conversa que rolava solta na calçada lhe dessem algo. Uma estória da qual ele seria o narrador, mas os sons eram apenas obstáculos enfeitados que lhe fazia perder mais tempo. À essa altura a garganta estava seca. Levantou-se, bebeu água e decidiu que precisava de algo mais forte que lhe abrisse a mente. Foi à despensa e pegou o pó de café. O café era uma bebida que tinha seu valor, foi alicerce de impérios, circulou entre os mais sábios, entre os artistas de forma corriqueira chegou a fazer parte de grandes obras. Pensadores de muitas gerações já meditaram sobre a fumaça enebriante do café. A quem faça dele oráculo, a leitura da borra de café é uma cultura milenar criada pelos árabes. Uma bebida assim só poderia inspirá-lo. Colocou a água para ferver. Esperou as bolhas de ar formarem-se no fundo da leiteira e como numa dança desprenderem-se do fundo e chegarem à superfície. Fez  o café tomou um gole e sentou-se. O cursor ainda piscava impaciente ele agora sentia um calor que vinha da sua bebida inspiradora e o cheiro da infusão tomou o ambiente. Deu mais um gole agora a noite estava silenciosa. Nada vinha de fora para forçar-lhe a escrever. De repente  o telefone toca, do outro lado da linha uma voz feminina pergunta: - Quem está falando?
Ele irritado olha para o relógio que marcava meia noite e retruca: - Eu que pergunto quem me liga à essa hora da noite?
A voz feminina meio desapontada responde: É, deve ser engano você não é o que procuro.
Ele agora com um toque de curiosidade pergunta: - Você gostaria de falar com quem?
A voz feminina com um ar sorridente responde: - Talvez você possa me ajudar. Tenho um problema e preciso falar com alguém, mas essa pessoa precisa saber que uma vez que tiver ouvido a história fará parte dela. Não haverá como escapar e não sou eu quem vai lhe prender na minha trama, você quem vai querer cruzar a linha e espiar o resto, a partir daí o desfecho dependerá de você também.
Ele do outro lado da linha suspirou e apesar de ter certeza que aquilo era uma espécie de trote não desligou. Afinal ele quase suplicou a noite inteira por uma trama, uma história que se permitisse ser contada. Talvez a história da voz ao telefone fosse apenas uma piada sem graça, mas agora era tarde a trama se desenhava em sua mente já independente da voz narradora do outro lado. Ele precisava dar corda aquele momento seu coração começo a acelerar sua cabeça fervilhava. Depois de segundos de silêncio ele respondeu: Então de-me sua história, mas devo adverti-la que uma vez fora da sua boca ela será minha também e dela farei o que desejar. Pronta?
A voz do outro lado disse: Sim!
Ela falou por o que pareceu ser horas. Ele não relaxou em nenhum momento da história. Estava surpreso, perplexo e sem esperar disse: Preciso vê-la.
Ela parou de falar e em seguida prosseguiu dizendo: Posso lhe oferecer um café?
Ele lembrou da bebida na escrivaninha e disse: Claro. Nada envolve melhor uma história que um café. Ele saiu apressado e foi encontrar com ela numa cafeteria próxima que servia de ponto de encontro para escritores e  artistas onde faziam-se saraus noite à fora. Ele entrou e procurou pela descrição que ela havia lhe dado. Percorreu devagar o local com os olhos sem deixar escapar nada até avistar. Ela estava sentada numa mesa de canto para dois. Tinha cabelos ruivos e vestia um vestido preto que contrastava com a pele clara. Ele não acreditou no que viu foi em sua direção sentou-se e o garçom veio pegar o pedido. No tablado um poeta recitava seus versos. Ela pediu um café preto sem açúcar e bem forte. Ele à acompanhou. Ela recomeçou de onde havia parado. Ele já havia experimentado inúmeros sentimentos no decorrer da história desde raiva a risos, mas agora as palavras que saiam dos lábios dela tinham cor forma as vezes um sorriso se desenhava em seus lábios noutras vezes uma lágrima queria saltar dos seus olhos castanhos claros. Ele se deleitou nas suas palavras estava feliz em apenas ouvir ao invés de contar histórias poderia ficar ali pra sempre sem pressões, sem cobranças. No meio de tudo aquilo um ruído lhe alcançou. Ele tentou desvencilhar daquele ruído que não combinava com a imagem que ele via e mascarava voz da mulher. Ele procurou e o barulho era insistente, foi aumentando. De repente o barulho ficou completamente audível. Como ninguém ouvia? Como ela continua a contar a história indiferente a este barulho se eu mal podia ouvi-la? O lugar foi ficando claro tudo foi desaparecendo na luz inclusive a mulher. A luz machucava os olhos e ele cerrou-os com força. Ao abri-los viu-se em sua escrivaninha o sol invadia a janela aberta. A fumaça do café se foi e com ela o cheiro inebriante e a voz da ruiva. O cursor piscava na tela, mas agora fazia companhia à um ponto final e à sua esquerda havia muitos outros caracteres. A página branca estava rajada de preto de ponta à ponta.  Ele enfim identificou o barulho, era o telefone que  tocava desesperadamente. Ele ainda zonzo atendeu e uma voz familiar e feminina do outro lado da linha falou: -Bom dia. Quem está falando?

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